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Ariosto Teixeira, O poeta que desafiou o medo

"Raramente nos víamos. Mas quando nos encontrávamos havia uma certa cumplicidade, e nos olhos, ao nos cumprimentar, uma espécie de “nunca nos esquecemos um do outro embora nos vejamos tão pouco”."

Paulo José Cunha

 

Raramente nos víamos. Mas quando nos encontrávamos havia uma certa cumplicidade, e nos olhos, ao nos cumprimentar, uma espécie de “nunca nos esquecemos um do outro embora nos vejamos tão pouco”. Sabia quase nada da vida dele. Só que era ótimo repórter. Juntos, nos iniciamos no jornalismo político, freqüentando o Comitê de Imprensa da Câmara. 

Sabia que cursara Ciência Política, tal a sua paixão “científica” pela área. Que gostava de caiaques. Principalmente sabia que era elegante, discreto, firme em suas convicções. E que sabia sorrir um riso tímido, reservado. Não me recordo da última vez que o vi às gargalhadas. Eram raras. Também nunca o vi triste, mesmo quando a doença já o devastava, e os sinais eram visíveis nas faces pálidas, encovadas. Mas os olhos – ah, os olhos do meu amigo! – sempre foram vivos, alegres e argutos. E sua voz tinha uma tranqüilidade e uma segurança que atordoavam, principalmente quandorecitava.


Sim, porque meu amigo Ariosto Teixeira, nosso “Tchê”, era poeta, poetão, poetíssimo. Desses que, ao mesmo tempo em que dominam a língua como um domador a um potro selvagem, deixam a alma leve e livre para mergulhar pelos vales ou escalar as montanhas. Os mais próximos já conhecíamos a força de seu verso. Mas no primeiro Palavra Solta (atual Poesia da Lua), recital que reúne um grupo de poetas, e do qual Ariosto era um dos participantes, no Café Martinica, em Brasília, sentimos uma coisa diferente. Uma pancada. Foi quando ele, já bem magro, mas com voz segura e firme, subiu ao pequeno palco e calou o bar ao ler o seu magnífico O niilista medroso. Principalmente uma parte que diz:

 

“Você tem medo(...)

Medo de que Deus provavelmente não exista

De não haver outra vida

Você tem medo de ficar sozinho

Sem ninguém nem final feliz

(...)Você principalmente tem medo

Do que um dia vai fazer

Quando ao anoitecer

O seu rosto tiver desaparecido do espelho do banheiro”.


 Sem medo, e discretamente, como era de seu feitio, o poeta partiu no último dia 23/01/2009, vítima de complicações hepáticas (era transplantado).

Dele ficou-me uma saudade doída, funda, íntima. Uma inveja danada de sua coragem, e a lembrança que me acompanhará para sempre de seu sorriso tímido e cúmplice. Se você só tem contato com a poesia de versinhos sorridentes, tipo coca-cola, prepare-se para tomar o seu primeiro porre de absinto. Leia em voz alta, na íntegra, o já citado O niilista medroso (www.blogdoturiba.blogspot.com). E conheça um poema-petardo inesquecível.

 

Um abração, Tchê! A gente se vê uma hora dessas.

 

 

O NIILISTA MEDROSO

                   Ariosto Teixeira

 

Às vezes você se pergunta

Olhando o rosto no espelho

Se o reflexo é verdadeiro

Ou se a verdade é o corpo

Parado no meio do banheiro

 

Você acha que sabe bem o que é

Você acha que sabe bem o que quer

Você acha que sabe quem você é

 

Mas você sente medo

Medo de não ser você no espelho

Medo de ser mero reflexo

Do outro que consigo parece

 

Você não tem medo de sexo

Você gosta de sexo

Você sonha com sexo

Você procura fazer muito sexo

 

Sexo à distância

Sem beijo sem fluido

Higiênico e sem lirismo

Seguro como sexo com prostituta

Você de frente ela de costas

Ela por cima de costas

Você por baixo de costas deitado

 

É que você tem medo

Do ataque de um vírus complexo

Medo de gravidez

Medo de se apaixonar irremediavelmente

Medo de perder o controle

Medo de assumir o controle

Medo de que tudo enfim faça nexo

 

Você acende e apaga o cigarro

Com medo de pegar câncer de pulmão

Medo de apagar a luz

Medo de acender a luz

Medo de desligar o alarme

Medo de abrir o portão

Medo de ladrão policial pivete

Medo de colisão

De atropelamento

De ataque do coração

 

Medo de padre

Da certeza cristã absoluta

Da democracia liberal

Da esquerda latina

Medo da nova direita francesa

Medo do presidente americano

Medo da falta de medo do terrorista muçulmano

Medo de ser fragmentado por um raio da Al Qaeda

 

Medo da China capitalista

De milho transgênico

De buraco negro

De carne vermelha

Medo da falta de limite da física quântica

Do aquecimento global

Da inteligência artificial

De velocidade acima do permitido

De remédio de quinta geração

Da globalização

Do fim da globalização

Da falta de sentido

 

Medo de que Deus provavelmente não exista

De não haver outra vida

Você tem medo de ficar sozinho

Sem ninguém nem final feliz

 

Ah mas você confia no amor

O terno e doce amor

Do homem pela mulher

Do homem por outro homem

Da mulher por outra mulher

Do homem pelos animais

Da humanidade pela natureza

Você confia no amor das criancinhas

 

Você pensa nessas coisas

E por um instante

Acha que nada está perdido

Que o amor salvará o mundo

O amor romântico como no cinema

Como em um soneto de Shakespeare

Apesar da podridão no reino terrestre

 

Mas quanto tempo dura o amor

Antes de se dissolver em tédio

15 minutos uma tarde inteira uma noitada?

 

Você odeia sentir isso assim tão sentimentalmente

Mas é impossível ser de outro modo

É preciso agarrar-se a algo

Não ter medo de que o vazio

Tenha se espalhado em todos os quadrantes

 

O fato indiscutível é que você tem medo

Medo muito medo

De ficar vivo durante o inverno nuclear

 

Você principalmente tem medo

Do que um dia vai fazer

Quando ao anoitecer

O seu rosto tiver desaparecido do espelho do banheiro



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