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TRIBUTO A ARIOSTO TEIXEIRA

Ariosto era de Bagé. Fomos colegas da terceira turma de jornalismo da Universidade Federal de Santa Maria. Começamos em 1974 e terminamos em 1977.


Por Ana Genro

Ele chegou de macacão, barba, uma bolsa de couro grande que ele mesmo fabricava e vendia para colegas. Morava num fundo de casa, um barraquinho de madeira que no inverno devia ser frio de rachar rabo de cusco (cachorro para os menos entendidos). Era amigo do Fausto Brignol, um outro colega loiro de cabelos compridos e olhos muito azuis, que a minha mãe costumava chamar de “cara de Jesus Cristo”.

Passamos por todos os rituais de iniciação à Faculdade de Comunicação Social, como a festa dos calouros, as reuniões com violão, e a medida que o tempo ia passando, as reuniões políticas. O pessoal da primeira e da segunda turma gostava de fazer discípulos entre os novos que chegavam e conseguiam, pois os tempos eram de ditadura. Um de nossos mentores intelectuais era o Adelminho Genro, irmão do Tarso, hoje ministro.

Líamos livros proibidos de Chê, Mao Tse Tung, Fernando Henrique Cardoso, Eduardo Galeano... Éramos (os da turma de jornalismo) os “esquerdistas”, “comunistas”, “trotskistas”, “leninistas”. Por isso, em cada turma sempre tinha um infiltrado militar, dedo duro da ditadura, que a gente descobria e o coitado era literalmente fritado até sair do curso de tanta vergonha. Distribuíamos panfletos, fazíamos um jornalzinho caçado pela reitoria, mas que virou o nosso convite de formatura, éramos vistos pelos professores como as “piores” turmas, apenas porque ousávamos pensar, criticar e questionar. Nosso hino era “Para não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré, torturado pelos militares naqueles obscuros tempos.

Ariosto namorava uma colega de turma e todo mundo pensava que eles iam se casar. Mas um belo dia eles terminaram. Ninguém entendeu  porque ela tinha deixado um cara tão legal.

Em seguida ela apareceu com outro e a gente achou que quem tinha saído perdendo era ela.  E o curso foi passando e Ariosto sempre com sua simpatia, seu sorriso tímido, seu senso crítico, inteligência, a barba, a bolsa de couro e os macacões.

 Até que nos formamos. E fomos todos seguir nossos destinos.

Ariosto veio para Brasília. Anos mais tarde, eu também. E vim parar na casa do Ariosto. Ele morava no Lago Norte, com um outro amigo gaúcho da mesma turma dos “esquerdas de Santa Maria, o Bismarque. Naquele tempo- 1985 – já era pai de seu primeiro filho com  a Solange. Ele me deu um quarto na casa, para o tempo que fosse necessário. Não fiquei muito. Talvez uma semana. Em seguida consegui um emprego na então TV Manchete e me deram uma hospedagem gratuita no Heron Hotel, onde Adolf Bloch tinha  quartos para seus convidados que vinham a Brasília. Eu era uma funcionária da empresa, mas fui agraciada com esse benefício até que, em um mês de trabalho, aluguei um apartamento mobiliado na Asa Norte. Mais uma vez, o meu amigo Ariosto me ajudou sendo um dos meus fiadores.
E a vida foi passando... Depois disso, encontrei com ele poucas vezes. Brasília faz isso com as pessoas- vai nos afastando de amigos sem nos darmos conta. O trabalho, outras relações de amizade, novos desafios...

Então, 25 anos depois de ter chegado a Brasília com uma mala de rodinha e um endereço no Lago Norte do Ariosto, volto da praia e deixo para abrir os emails depois. Afinal, não teria nada importante assim que não pudesse esperar eu desfazer as malas e me adaptar novamente à altitude de Brasília
Engano. Notícia ruim quando chega e nos pega desprevenidos é muito pior.  Abro um email de uma outra colega nossa de turma, a Dária Cidi, de Tupã, que mora no Rio Grande do Sul, dizendo que o nosso amigo tinha morrido.

Fiquei triste, muito triste de não ter sabido sequer que ele esteve internado no hospital. E se foi, sem que eu, e muitos outros amigos antigos, tivessem se despedido.

Fica este texto como tributo a Ariosto Teixeira. Baixinho de coração grande, visão larga e mente arguta. Poeta mais que sensível, jornalista político, amigo inesquecível. Que Deus o  tenha recebido em Sua Glória e descanse em paz. Quem sabe, se um dia nos encontrarmos de novo, possamos cantar juntos no céu: “Caminhando e cantando e seguindo a canção. Somos todos iguais, braços dados ou não. Nas escolas, nas ruas, campos, construções. Caminhando e cantando e seguindo a canção...”


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