Há
uma semana, no dia 23 de agosto, faleceu em Brasília, aos 54 anos, o repórter
fotográfico J. França, com septicemia, provocada por um apêndice supurado, e em
decorrência de um acidente vascular cerebral durante a cirurgia.
Profissional
sério, deixou um importante legado para o fotojornalismo brasileiro. Ele
trabalhou no Jornal de Brasília, Correio Braziliense, Jornal do Brasil e O
Globo.
Deixou
esposa (Rosinha) e três filhos. E também muita saudade dos colegas e amigos.
A
diretoria do Sindicato dos Jornalistas soma-se às justas homenagens que estão
sendo feitas ao colega, e que foram inicialmente puxadas pelo repórter fotográfico
André Dusek, que escreveu um pequeno artigo lembrando o episódio mais marcante
da carreira de J. França.
Leia
a seguir o artigo de Dusek e as homenagens de alguns dos colegas e amigos de J.
França.
J. França, o fotógrafo do protesto na rampa
Brasília
1984 - Câmeras no chão. Todos os fotógrafos e cinegrafistas que cobriam o
Palácio do Planalto fizeram um gesto de rebeldia diante do presidente da República, quando ele descia a rampa do Palácio numa terça-feira de 1984. Um
único fotógrafo com a câmera no rosto, José de Maria França, do outro lado da
rampa, fez a foto. Ele foi o escolhido por seus colegas manifestantes para
registrar esta cena para a história.
Final
do governo Figueiredo: começo do fim do regime militar. Faltava menos de um ano
para a eleição do sucessor do general João Baptista Figueiredo. Numa audiência
de Figueiredo com o “presidenciável” Paulo Maluf, o presidente estava
visivelmente mal-humorado. Ao ver que alguns fotógrafos já se encontravam
dentro do gabinete presidencial, Maluf disse a Figueiredo, “Sorria, presidente”!
E o presidente respondeu: “Estou na minha casa e fico como eu quero”. Ao
retornarem ao comitê de imprensa, os fotógrafos que presenciaram aquela cena
passaram a informação aos repórteres de texto, e aquele diálogo, no mínimo
engraçado, foi para a primeira página dos principais jornais do país. Ao ler as
manchetes na manhã seguinte o presidente, irritado, disse que não houve tal
diálogo e que os fotógrafos eram mentirosos. Em represália, Figueiredo proibiu
o acesso de qualquer fotógrafo ou cinegrafista ao seu gabinete.
Por
esse motivo foi realizado o ato de protesto: no momento em que Figueiredo
descia a rampa, todos os fotógrafos e cinegrafistas colocaram as suas câmeras
no chão diante do presidente e não fotografaram o acontecimento. O fotógrafo do
Jornal do Brasil, J. França, foi escolhido pelos colegas para fazer a foto do
protesto e distribuir para todos os jornais. O protesto virou notícia nacional.
André Dusek
Depoimentos de alguns colegas -
Joédson Alves
- Bom dia colegas, é com tristeza que recebo esta
notícia. Tive o prazer de trabalhar ao lado de J. França (conhecido
no meio dos fotógrafos como Manga, porque ele era muito
escorregadio) quando ele era do JB. Que França ou Manga esteja em um
lugar melhor. Vai deixar saudades.
Adriano Machado
- Uma pena, e
meus sentimentos. Ele sempre bem-humorado, deixou sua grande contribuição para
a história do fotojornalismo
Fabio Varela
- Meus sentimentos pelo falecimento do
parceiro...
Zé Varella
– J. França fez
a foto do protesto dos fotógrafos, mais importante, de que tenho conhecimento,
em Brasília. Nesse tempo, tivemos um início de organização que logo se dissipou
e voltamos a ser representados pelos coleguinhas de texto da vez. Fomos sempre
concorrentes, França e eu, quando estive no JB, ele no Globo. Rápido, arisco e
ágil, era um fotógrafo com muita garra, um batalhador, como seu irmão Roque Sá.
Meu respeito, carinho e saudade.
Denio Simões
- Meus sentimentos pelo falecimento do parceiro.
Milton
Guran - Convivi com J. França na cobertura política em Brasília, e participei
do episódio em que ele fez a sua fotografia mais importante, entre tantas belas
imagens que nos legou. J. França era sereno e corajoso, consciente e solidário,
um profissional competente. Por isso foi escolhido para registrar o momento em que os
jornalistas enfrentaram de público o último general do regime militar, em
defesa da liberdade de imprensa. A foto saiu perfeita, simples, direta,
contundente, J. França não era de perder pauta. Com a sua maneira simples de
ser, ao largo das vaidades, fica na nossa memória como exemplo de repórter e de
ser humano.
Sílvio Tendler, cineasta, autor de “Jango” e “Os Anos JK”
- Bela homenagem você está
fazendo ao França. Belo mural da saudade você está construindo com o depoimento
dos fotógrafos.