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O repórter fotográfico Sérgio Andrade da Silva (31) tem a maior parte dos seus anos de experiência dedicada à cobertura de manifestações e conflitos urbanos. Já presenciou desapropriações em São Paulo e suas lentes já registraram a ação da polícia na Cracolândia, centro da capital paulistana.

Sempre que foi à rua Silva tinha consciência do risco que corria. Apesar da experiência, nunca presenciou nível de violência tão alto como o da manifestação que aconteceu na semana passada, dia 13 de junho, organizado pelo Movimento Passe Livre (MPL).

O fotógrafo, que fazia um trabalho freelancer para a agência Futura Press, virou vítima da polícia enquanto trabalhava. Passou por cirurgia na sexta e no último sábado recebeu alta. 

Em casa, Silva se mostra animado, porém, com o ônus de não poder voltar a enxergar do olho esquerdo, o que segundo ele, não vai impedir de continuar com seu trabalho. “Não vou desistir daquilo que amo fazer”, diz.

Pai de duas filhas, sua foto com os olhos sangrando – e a de outros colegas, como a repórter da Folha, Giuliana Vallone - virou símbolo da violência sofrida por profissionais de imprensa na última semana, ato que não pode ser considerado pontual, tendo em vista o histórico de violência contra jornalistas que vivem no Brasil.

Em sua casa, na região oeste de São Paulo, Silva recebeu IMPRENSA para dar seu depoimento. Apesar do momento difícil, ele afirma que vai aproveitar a ocasião para conscientizar as pessoas da importância do trabalho da imprensa. “Os profissionais estão ali para trabalhar e levar informação, não estão para condenar e nem acusar. O governo e a sociedade precisam entender isso”.

IMPRENSA - Você já vinha acompanhando as outras três manifestações que aconteceram antes da semana passada?

Sérgio Andrade da Silva - Eu não fui aos primeiros protestos, mas venho acompanhado o trabalho do Movimento Passe Livre e de outras entidades desde 2011. Eu sempre fiz cobertura de protestos. Desde a gestão Kassab, quando aconteceram várias desocupações de imóveis no centro da cidade. Eu sempre tive interesse pessoal por cobrir manifestações. Mas essa foi a primeira em que presenciei violência tão extrema dos policiais contra os manifestantes e, contra a imprensa, que foi o meu caso.

Então, você nunca presenciou um tipo de violência como essa?

Nunca chegou a esse ponto. Inclusive, em vários atos, eu mesmo já encontrei policiais que acabavam nos conhecendo de nos acompanhar outras vezes. Eles até cumprimentavam os jornalistas. Você sabe que a polícia está lá para garantir o direito do cidadão de protestar e acompanhar a manifestação, mas sem repressão. Mas, nessa do dia 13, tinha algo diferente. A polícia não estava lá simplesmente para defender o direito de ir e vir. Estavam lá para reprimir e combater os manifestantes e o direito de protestar. Isso era visível. Estava explicito.

Qual o trajeto que você acompanhou?

Eu cheguei exatamente na concentração. Mas o ato já estava se dispersando pelas ruas do centro em caminho à Avenida Ipiranga. Comecei a seguir o grupo registrando as faixas, o grito das pessoas e fui seguindo até subir a Rua da Consolação, em direção à Avenida Paulista.

Você estava com outros profissionais de imprensa ou sozinho?

Eu fui sozinho, mas encontrei diversos colegas de outros veículos. Conversamos e era perceptível no semblante deles que estava um clima perigoso. Todos desejavam boa sorte uns aos outros e pediam para tomarmos cuidado, tudo isso foi antes de o conflito ocorrer.

Quando você decidiu acompanhar aquela mobilização?

Foi na véspera. Foi algo pensado, eu tinha ciência do tamanho da manifestação e dos riscos que poderiam ocorrer.  Fiquei concentrado pensando nesse trabalho.

O que você estava registrando até então?

Até o início da Rua da Consolação seguia pacífica. As pessoas iam com as faixas levantadas e aos gritos. Meu foco, até aí, era registrar as pessoas com as mensagens. Quando chegamos à Praça Roosevelt, o clima começou a mudar. A polícia fechou a Rua da Consolação e a Guarda Civil Municipal fechou a praça.

O protesto estava sendo pacífico?

Nenhuma depredação. Nenhum ato de vandalismo. Não vi nada disso. Nenhum vídeo quebrado, nenhuma lixeira caída. Naquele momento, eu me lembro de ter presenciado um dos comandantes da polícia dando entrevista a jornalistas e a um pequeno grupo de manifestantes que eles não poderiam ultrapassar.  Só que não houve diálogo, apenas esse aviso isolado. Neste ponto da Consolação começaram os tumultos. Especificamente na Rua Caio Prado com a Consolação. Ali, os manifestantes avançaram, entre aspas, desrespeitando a ordem da polícia. Os policiais começaram a atacar. A partir daí, não houve distinção de manifestantes, pedestres e jornalistas.

O que aconteceu?

Atiravam em direção às pessoas, sem distinção. Era tiro para todo o lado. Começaram as balas de borracha e as bombas de efeito moral vindo em minha direção. Minha primeira atitude foi procurar um local para me proteger fisicamente. Em nenhum momento pensei em registrar aquilo. Naquela hora, pensei apenas em minha proteção física. Procurei abrigo atrás de um carro, muitas bombas de gás começaram a cair próximas ao veículo que eu estava.

Você levou material de proteção?

Eu estava protegido com uma máscara. Mas o gás estava muito forte, os olhos começaram a arder. Corri atrás de uma banca de jornal e esperei por alguns poucos minutos parecia que tinha se acalmado. Neste momento, eu consegui fazer uma imagem para saber quem estava atirando. Por proteção, fiquei com metade do corpo para fora. Neste instante, vários colegas saíram correndo. Novas bombas começaram a ser lançadas. Foi aí que senti o impacto no meu olho.  Voltei a me proteger atrás da banca. A dor foi muito forte, terrível. Nunca senti nada igual.

Quem o socorreu?

Mesmo sangrando, vi que não poderia ficar parado, se não, algo pior aconteceria. As pessoas continuavam correndo e bombas eram lançadas em minha direção. Estiquei meu braço e fui tateando as pessoas para tentar me agarrar em alguém. Nesse instante, surgiu um anjo da guarda para me ajudar. O professor Severino. Ele perguntou se eu estava ferido e começou a gritar “repórter ferido”, “repórter ferido”. As pessoas começaram a abrir caminho e ele me afastou da multidão. Foi desesperador. Não sabia se sairia vivo. Junto com ele, começamos a procurar um hospital mais próximo.  Ele parou no posto de gasolina. Comprou uma água, mas eu nem conseguia tomar porque mesmo a boca seca, eu me sentia afogado. O olho sangrava muito e o nariz também.

O que passou pela cabeça nessa hora?

O que eu mais pensava nessa hora era na minha família, na minha esposa, na minha mãe. Queria um hospital de qualquer jeito para salvar minha vida. Seguimos em direção ao Hospital Nove de Julho. O problema era que esse caminho era rota de fuga das pessoas que estavam fugindo dali.   Ele tentou pegar um táxi, mas o jeito era ir de a pé, não dava para tomar um táxi. O gás começou a fazer efeito e eu comecei a vomitar. O sangue não parava de cair. Foram quarenta minutos terríveis. Achei que não ia conseguir chegar, não desmaiei, mas pensei em desabar para que a dor diminuísse. O Severino me dava força e me animava.

Em algum momento você se arrependeu de estar ali, trabalhando e colocando a vida em risco?

Sim. Mas não a ponto de ser um pensamento pessimista. Eu sabia que estava em uma situação de risco. Principalmente quem cobre este tipo de assunto tem consciência e sabe do tipo de risco. Eu tenho amor ao que faço. Amo fotografar, amo poder fazer parte do noticiário. As pessoas têm a obrigação de saber o que está acontecendo por meio das imagens e das notícias. E eu me sinto na obrigação de levar a informação do que acontece na cidade.

Pensou em desistir da profissão em algum momento?

Mesmo estando impossibilitado de enxergar do olho esquerdo, eu não penso em desistir. Penso em continuar. Claro que ainda preciso de orientação médica, ainda preciso de uma confirmação de que poderei exercer integralmente a profissão.

Mas está confirmado que você não voltará a enxergar?

Não. Ainda não tem um diagnóstico. Existe uma possibilidade. Mas os médicos foram bem realistas. Será muito difícil recuperar 100%. Mas não é impossível. E é nisso que eu me apego nessa hora, em meus amigos, em minha família e na própria imprensa. Alguns órgãos e instituições estão me procurando e é nisso que eu me apego.

Que mensagem você passa neste momento para o governo, colegas, para quem seja?

Tanto a sociedade, quanto os órgãos de governo precisam entender o real papel da imprensa em cobrir manifestações. Não só manifestações, mas tudo relacionado ao nosso país. Os profissionais estão ali para trabalhar e levar informação. Não estão para condenar e nem acusar. Estamos lá apenas para apurar os fatos e levar informações para nossos veículos. Tanto o governo, quanto a sociedade precisam entender nosso papel.

Pessoalmente, eu passo um momento muito difícil. Sei que não voltarei a ver minha filha como antes, com os dois olhos. Essa é a maior derrota que eu tive com toda essa violência. Profissionalmente, não sei como vai ser daqui em diante, não sei se vou ter condições de trabalhar com fotojornalismo e condições físicas de estar na rua e se terei um emprego garantido. É um momento muito difícil.

Publicado pelo Portal Imprensa

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