Os trabalhadores gráficos do grupo Clarín, maior conglomerado de mídia da Argentina, entraram na terceira semana de protestos. O movimento foi deflagrado desde o dia 16 de janeiro, data em que os funcionários se depararam com o fechamento da Artes Gráficas Rioplatense (AGR) e o comunicado de demissão de cerca de 380 empregados. Eles decidiram, desde então, ocupar a planta da AGR.
A empresa alega que as demissões ocorreram por conta da crise no setor, mas os trabalhadores rebatem o argumento e dizem que tudo não passa de uma manobra para aprofundar na flexibilização de direitos e das condições de trabalho. Atualmente, o governo do presidente Maurício Macri tenta aplicar em todo país um plano de ajuste fiscal que prevê, entre outras coisas, a reforma trabalhista, com a flexibilização de direitos e precarização das condições de trabalho. As medidas têm grande apoio patronal e, indiretamente, de algumas centrais sindicais.
AGR
A AGR pertence ao grupo Clarín e é responsável pelos jornais Diário Clarín, Todo Notícias, pela Rádio Mitre e pelo Canal Eltrece (segundo maior da Argentina). O grupo também atua na TV por assinatura e na internet. O principal acionista do conglomerado é Hector Magnetto, além de uma pequena parcela das ações nas mãos do Goldman Sachs (grupo financeiro dos EUA) e outra controlada pelo governo argentino.
Movimento dos trabalhadores
Durante as últimas três semanas, a luta dos trabalhadores gráficos ganhou força com várias marchas nas ruas de Buenos Aires. O sindicato dos caminhoneiros se uniu ao movimento, quando se dispôs a dificultar a distribuição dos jornais do Grupo. A sociedade demonstra apoio ao movimento e as redes sociais estão sendo utilizadas para dar força aos funcionários. A frase “se os gráficos ganham todos ganhamos” tem sido amplamente divulgada na internet.
Em recente entrevista à emissora Radio 10, o secretário geral de AGR-Clarín, Pablo Viñas, agradeceu o grande abraço solidário que foi realizado no último sábado (28/1) à noite em apoio à causa. Ele também ressaltou que uma campanha foi feita neste mesmo dia no Twitter. Os internautas pediram para as pessoas não comprarem o diário Clarín.
“Não é que estejamos em greve. Nos apresentamos na segunda-feira para trabalhar e nos deparamos com a informação de que a empresa fechou, que a gerência se foi, esvaziaram a administração de computadores”, afirmou Viñas em coletiva de imprensa realizada na última quinta-feira (26/1).
Estamos diante de demissões ilegais, acrescentou. Por lei, a empresa que queira demitir mais de 15% dos empregados está obrigada a um procedimento que deve passar pelo Ministério do Trabalho. Viñas e seus companheiros da AGR-Clarín exigem ser recebidos pelo ministro do Trabalho, Jorge Triaca, para que lhes apresente uma solução ao problema.
Cobertura escandalosa
O Diário Clarín chegou a atacar a luta dos trabalhadores gráficos em suas páginas. Em uma matéria publicada pelo jornal sem assinatura de nenhum jornalista, o veículo destacou que um grupo de 40 manifestantes havia tomado violentamente a planta da AGR, quebrando janelas, portas e câmeras de segurança. A matéria ainda alega que todas as tentativas da empresa de negociar a situação foram rechaçadas por intransigência da comissão de trabalhadores. Em nenhum momento da matéria é mencionado o fato de a AGR pertencer ao Grupo Clarín.
Repressão
Uma manifestação em apoio à ocupação da planta da AGR foi convocada pela Federación Gráfica Bonaerense para quinta-feira (19). Houve paralisação de toda a categoria na capital e centenas de manifestantes se reuniram no Obelisco de Buenos Aires, marco turístico da cidade, em apoio à ocupação. O ato percorreu as ruas da cidade até o Ministério do Trabalho.
Nesse mesmo dia, em frente à fabrica, houve repressão. A polícia argentina havia cercado a fábrica e chegou disparar contra os trabalhadores nos portões da fábrica e contra suas famílias, que formaram comissões de apoio à ocupação. Em vídeos que circularam nas redes sociais, é possível ver muitos trabalhadores feridos com balas de borracha, denunciando também o uso de gás de pimenta.
Fontes: Prensa Latina e PSTU