Nota de solidariedade à jornalista Basília Rodrigues
A Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial do Distrito Federal (Cojira-DF), as Cojiras do Rio de Janeiro, São Paulo e Alagoas, e o Núcleo de Jornalistas Afro-Brasileiros do Rio Grande do Sul vêm a público manifestar solidariedade à jornalista Basilia Rodrigues, repórter reconhecida pela cobertura séria que realiza há mais de 12 anos em Brasília sobre a política nacional, especialmente sobre o Executivo, o Congresso e as demais instituições que compõem o Estado Democrático de Direito.
Com atuação consolidada no radiojornalismo e estreando na televisão por meio da CNN, emissora de matriz estadunidense que em março iniciou sua trajetória no Brasil, a jornalista cometeu um lapso, ao vivo, no dia 19 de março: ao tentar dizer que Chile e Equador não fazem fronteira com o Brasil – o assunto era o fechamento de fronteiras nacionais por conta do coronavírus – acabou dizendo que os dois países não faziam parte da América do Sul. Basília corrigiu o erro durante o próprio programa da emissora, explicou a correção pela internet, no Twitter, e seguiu. Mas internautas tentaram reduzir a competência profissional de Basília àquele lapso. Diante dos ataques à jornalista, a própria CNN publicou que "tem orgulho de contar com uma profissional do quilate de Basília e considera injusto apontar o dedo para ela com o objetivo de atacar a emissora". A jornalista tem trajetória marcada pelos acertos na apuração, análise e qualidade no que diz.
Em tempos de Internet, sabemos que o rigor das críticas é proporcional à velocidade com que elas se disseminam. Isso acontece todos os dias com pessoas públicas através de memes, vídeos, gifs. A “zoeira nunca acaba”, dizem. Contudo, quando atravessadas pelas questões racial e de gênero, as críticas são ainda mais severas e remetem à exclusão. Basília Rodrigues não foi apenas “zoada”. Ela sofreu ataques racistas e sexistas graves. Além disso, a sua capacidade técnica para ocupar o lugar profissional de visibilidade e reconhecimento que hoje ocupa foi questionada, e esse tipo de questionamento pode nos oferecer várias chaves de reflexão sobre como o racismo opera historicamente na mídia.
Durante anos, o padrão televisivo brasileiro segue priorizando perfis estéticos que são o oposto do que Basília Rodrigues, uma mulher negra, representa. A branquitude é a regra dentre os rostos que apresentam notícias e comentários aos telespectadores, mesmo isso não sendo o reflexo da maioria da população brasileira, que é negra. Nos últimos anos, mudanças ocorreram, e alguns profissionais negros (ainda poucos se pensarmos em maioria da população) ocupam com maior frequência e destaque espaços de visibilidade na mídia brasileira. Isso, porém, não se configura em transformação estrutural – também porque o racismo da sociedade persiste – nem influenciou de maneira determinante o imaginário social, ainda acostumado com corpos brancos diante das câmeras de telejornais e obras do audiovisual em geral.
Do mesmo modo, a maior presença de profissionais negros não significa o reconhecimento do racismo como questão estruturante da sociedade ou um sincero interesse por causas e ações que denunciem a lógica racista por meio da qual a sociedade opera. Assim, além de se solidarizar com Basília Rodrigues, a Cojira afirma que seguirá atenta às situações de desrespeito que culminam em ataques racistas (alguns diretos, outros disfarçados, subjetivos) a jornalistas negros e negras que contribuem para que a imprensa brasileira cumpra seu papel de monitorar a atuação dos poderes instituídos e informar a sociedade.
Brasília-DF, 3 de abril de 2020.
Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial do Distrito Federal - Cojira-DF
Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial do Rio de Janeiro - Cojira-RJ
Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial de São Paulo - Cojira-SP
Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial de Alagoas - Cojira-AL
Núcleo de Jornalistas Afro-brasileiros do Rio Grande do Sul